terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Estrutura social: Família ou Empresa?

FAMÍLIA: A família representa um grupo social primário que influencia e é influenciado por outras pessoas e instituições. É um grupo de pessoas, ou um número de grupos domésticos ligados por descendência (demonstrada ou estipulada) a partir de um ancestral comum, matrimónio ou adopção. Nesse sentido o termo confunde-se com clã. Dentro de uma família existe sempre algum grau de parentesco. Membros de uma família costumam compartilhar do mesmo sobrenome, herdado dos ascendentes directos. A família é unida por múltiplos laços capazes de manter os membros moralmente, materialmente e reciprocamente durante uma vida e durante as gerações.
Podemos então, definir família como um conjunto invisível de exigências funcionais que organiza a interacção dos membros da mesma, considerando-a, igualmente, como um sistema, que opera através de padrões transaccionais. Assim, no interior da família, os indivíduos podem constituir subsistemas, podendo estes ser formados pela geração, sexo, interesse e/ ou função, havendo diferentes níveis de poder, e onde os comportamentos de um membro afectam e influenciam os outros membros. A família como unidade social, enfrenta uma série de tarefas de desenvolvimento, diferindo a nível dos parâmetros culturais, mas possuindo as mesmas raízes universais (MINUCHIN,1990).
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Foto daqui: A Família de Tarsila do Amaral

EMPRESA: É um conjunto organizado de meios com vista a exercer uma actividade particular, pública, ou de economia mista, que produz e oferece bens e/ou serviços, com o objectivo de atender a alguma necessidade humana. O lucro, na visão moderna das empresas privadas, é consequência do processo produtivo e o retorno esperado pelos investidores. As empresas de titularidade do Poder Público têm a finalidade de obter rentabilidade social. As empresas podem ser individuais ou colectivas, dependendo do número de sócios que as compõem.
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Foto daqui
SOCIEDADE: Em Sociologia, uma sociedade é o conjunto de pessoas que compartilham propósitos, gostos, preocupações e costumes, e que interagem entre si constituindo uma comunidade. A sociedade é objecto de estudo comum entre as ciências sociais, especialmente a Sociologia, a História, a Antropologia e a Geografia.
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Foto daqui
A “mercantilização” do carácter no contexto familiar
Colocando o “seu olhar” no âmbito das relações familiares, a presente nota investiga a relação existente entre a nova forma de se organizar o tempo no actual capitalismo e a formação do carácter humano, assim como, o reflexo das contradições da filosofia neoliberal no pensar e no agir deste homem.
O individualismo, a noção de propriedade privada e o liberalismo económico são princípios que “sustentam” o mercado competitivo do sistema capitalista desde o século XV (ARAÚJO, 1998). Contudo, o século XX é marcado por um “novo” liberalismo. HAYECK (1987), economista inglês e pioneiro das ideias neoliberais, reitera o individualismo e a competição como a forma mais viável de organização social. Repele qualquer forma de intervenção estatal na economia e na vida política, instituindo que o progresso somente será alcançado por meio da total “liberdade” individual. Concebe, assim, as bases do que hoje se denomina de “neoliberalismo”.
Apesar da predominância dessa visão personalista, há outra lente que podemos usar para analisar o pensar e o agir do homem. Para isso, partimos do pressuposto de que o homem possui uma natureza sócio–histórica, constituindo-se através das relações sociais que estabelece no convívio em sociedade (MARX, 1980). Assim, as relações familiares também são concebidas a partir das condições materiais produzidas na sociedade. No capitalismo as regras mercantis são factores relevantes que condicionam a forma como essas relações serão instituídas. Há uma lógica mercantil (de trocas comerciais, lucros, estabelecimento de contratos e preservação da propriedade privada) regendo a sua estruturação, na medida em que “... a família é produto do sistema social e reflectirá o estado de cultura deste sistema” (Morgan apud ENGELS, 1974: 91). De acordo com ENGELS (1976), esse facto pode ser constatado, por exemplo, na instituição da monogamia como uma forma de preservação da propriedade privada e de concentração de riquezas.
Nessa perspectiva, reconhece-se que as relações familiares são permeadas pelas contradições sociais que emergem do modo de produção capitalista. Os indivíduos tornam-se mais livres e competitivos, contudo, experimentam mais de perto a solidão e a falta de autonomia, pois o individualismo exacerbado gera a necessidade de companhia do “outro” para se (re)afirmar numa posição social de poder, disseminando assim a competição e o conflito de interesses. O impacto dessas contradições neoliberais no âmbito familiar revela-se, dentre outros modos, na dificuldade de se estabelecer metas a longo prazo. A disputa pelo poder, a infidelidade e a maneira superficial dos membros de uma família se relacionarem exprimem sempre a urgência com que os interesses individuais devem ser satisfeitos, geralmente em detrimento dos interesses grupais.
Segundo SENNETT (1999), é nesse contexto familiar que se encontra uma das principais condições sociais que inviabilizam a estruturação do carácter na actualidade. Para o autor, os indivíduos envolvidos reproduzem uma “forma neoliberal” de relacionamento humano, marcado pelo individualismo, competitividade e por um novo elemento do actual capitalismo, a flexibilidade, que atribui um carácter de “curto prazo” a todas as formas de relacionamento.
O autor define o carácter como uma experiência emocional que cria referências duradouras passíveis de serem compartilhadas entre os homens, caracterizado pela durabilidade, pela confiança e pela lealdade adquiridas a “longo prazo”. No entanto, o actual sistema capitalista é marcado pela volatilização do tempo, devido, em parte, aos intensos impulsos consumistas e a sua consequente necessidade do descartável/renovável, como também, pelas transformações tecnológicas e científicas impulsionadas pela “guerra competitiva” do mercado capitalista. Dessa forma, o imediatismo, a flexibilidade e a necessidade de constantes mudanças impostas pelo sistema capitalista inviabilizam a construção do carácter.
Ainda de acordo com SENNETT (1999), a inviabilidade da estruturação do carácter parece decorrer da nova forma de se organizar o tempo. No período pós-guerra, berço do neoliberalismo como visto acima, os sindicatos e a intervenção estatal ampararam o trabalhador. Havia a possibilidade de se calcular o quanto de dinheiro seria possível acumular durante determinado período. Porém, numa forma posterior do capitalismo as organizações flexíveis são facilmente decompostas e redefinidas, o incremento tecnológico e a organização em redes inauguram uma nova forma do homem se organizar no tempo e de estabelecer as suas relações familiares. Cria-se um contexto social cujas condições materiais não dão lugar (nem tempo) para o carácter se estruturar.
Assim, respaldados nas teorias anteriormente apresentadas, podemos analisar que os princípios individualistas e “separativistas”, voltados para a competição e, desagregadores de laços afectivos duradouros, tanto familiares quanto sociais, inviabilizam e/ou dificultam a formação do carácter humano impondo exigências paradoxais na acção e no pensar humano.
Tatiana Colturato Festi - Graduanda do curso de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá.
Texto retirado daqui
Imagem daqui

1 comentário:

Em@ disse...

Interessante. Imagens impec...ou seja impecáveis,bem escolhidas.
:)))