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sexta-feira, 2 de abril de 2010

O método CLE – Uma proposta de alfabetização para países em desenvolvimento

Para quem não se deu ao trabalho de clicar para conhecer o método, aqui vai o texto completo de quem sabe, para quem quer saber...
Glória Maria Guiné de Mello Carvalho - Professora Assistente de Tradução no Instituto de Ciências Humanas e Sociais da UFOP; Chefe do Departamento de Letras e professora da Metodologia CLE.
A metodologia CLE de ensino surgiu a partir de reflexões que buscavam uma forma de eliminar o fracasso escolar, principalmente nos países em desenvolvimento.
O CLE – Concentrated Language Encounter – que traduzo como Abordagem Linguística Concentrada, começou a ser desenvolvido na Austrália, no início da década de 80, quando a equipe da Traeger Park School, no norte do país, iniciou um projecto para combater os altos índices de fracasso escolar entre as crianças aborígenes.
Este fracasso costuma ser, em grande parte, atribuído à origem dos alunos. Acredita-se que as crianças vindas da zona rural ou pertencentes às camadas mais pobres da população terão maiores dificuldades durante a aprendizagem porque começam a frequentar a escola com pouquíssimo ou nenhum contacto prévio com o mundo da escrita. As crianças cujos pais são alfabetizados e que têm acesso a livros e outros materiais impressos teriam a vantagem de já conhecer algumas formas e convenções da língua escrita, bem como a sua utilidade, que ainda precisam ser descobertas pelas outras crianças.
Entretanto, Richard Walker, Saowalak Rattanavich e John Oller, Jr., autores de Teaching All The Children to Read, livro que apresenta a metodologia CLE de ensino, acreditam, baseados na experiência australiana e no projecto desenvolvido na Tailândia, que os altos índices de fracasso escolar se devem mais ao que ocorre na sala de aula do que à origem dos alunos e/ou à falta de contacto prévio com a leitura e a escrita.
A partir da constatação de que, em qualquer parte do mundo, não importa qual seja a origem dos alunos, há um enorme processo de exclusão daqueles que simplesmente não se ajustam aos métodos tradicionais de ensino, não compreendem o que acontece na sala de aula e não aprendem a aprender fora do ambiente escolar, mas apenas a executar o que lhes é pedido, foi criada a metodologia CLE.
A primeira proposta do CLE é mudar o procedimento na sala de aula tradicional, em que o professor dirige todas as actividades e os alunos têm pouquíssimas oportunidades de interagir com ele e com os colegas. Foram, então, desenvolvidas actividades em que os alunos aprendem a ler e escrever ao mesmo tempo que adquirem habilidades não-linguísticas, úteis para sua vida quotidiana. Desta forma, adquirem gosto pela leitura e pela escrita e tornam-se agentes da própria aprendizagem.
A metodologia CLE pode ser usada em qualquer parte do mundo, em qualquer língua, para alfabetizar crianças, jovens ou adultos. É organizada em três níveis, ao fim dos quais os alunos estarão em condições de ingressar no mercado de trabalho, quebrando o círculo vicioso de perpetuação da miséria pela ignorância.
Isso ocorre porque um programa não pode ser transportado de um lugar para outro. Cada programa deve ser desenvolvido no local onde será implantado e, de preferência, pelos professores. Desta forma, as necessidades e a cultura local são respeitadas.
O ponto de partida é um texto relacionado a necessidades reais, do dia-a-dia, como hábitos de higiene, por exemplo, ou a apresentação de uma actividade “passo-a-passo”. Com crianças são utilizadas histórias simples que, além de conterem os componentes de encanto e fantasia, ajudam na interiorização de conceitos e valores para a vida.
No caso de principiantes, são preparadas Unidades apresentadas e trabalhadas em cinco passos:
1º Passo – Leitura compartilhada
2º Passo – Relato e dramatização da história
3º Passo – Negociação do texto
4º Passo – Confecção do Livro Colectivo
5º Passo – Actividades Linguísticas através de Jogos
No 1º Passo o professor deve utilizar todos os recursos possíveis para que o texto seja compreendido, a começar pela exploração da capa do livro e das ilustrações, bem como expressão facial e entoação de voz.
No 2º Passo os alunos contam a história e representam-na. É o momento de se expressarem e de demonstrarem o que entenderam. As crianças mais tímidas não devem ser forçadas a representar papéis de destaque. Podem ser narradoras e assumir papéis mais simples até se sentirem confiantes.
No 3º Passo os alunos, com o estímulo do professor, contam a história como a compreenderam, e o professor escreve-a. É importante notar que o texto negociado não é uma reprodução da história ouvida e representada. Isto significaria uma falha na execução do 2º Passo.
No 4º Passo, após diversas leituras do texto negociado, os alunos fazem um Livro Colectivo. Este é constituído do texto negociado, que os próprios alunos escrevem e ilustram e que será a base das actividades do 5º Passo.
O 5º Passo é constituído de actividades linguísticas através de jogos, sempre a partir do texto do Livro Colectivo. Alguns exemplos de jogos são:
a) Reconhecer palavras contidas no Livro Colectivo com a utilização de fichas, bingo, caça palavras, etc.
b) Ler sentenças que contenham palavras do Livro Colectivo, trabalho em duplas.
c) Escrever palavras do Livro Colectivo, forca, ditado.
Como se pode notar, a dificuldade das tarefas realizadas através de jogos vai aumentando até se atingir o ponto em que os alunos criam novos textos, oralmente e por escrito.
No caso de uma actividade “passo-a-passo”, somente o primeiro e o segundo passos são diferentes. Em primeiro lugar demonstra-se como fazer a actividade – a germinação do feijão, por exemplo – e, em seguida, os alunos reconstroem-na. A actividade também pode ser demonstrada por um profissional, como é o caso de noções de higiene e saúde ou trabalhos manuais.
Não há uma duração preestabelecida para as unidades. Elas devem durar o tempo necessário para que os alunos aprendam os conceitos, leiam e escrevam com desenvoltura. A avaliação vai sendo feita à medida que as actividades são realizadas. Calcula-se que, durante um ano, sejam trabalhadas entre 10 e 15 unidades.
O CLE, por destinar-se também a alunos que precisam aprender uma segunda língua, como é o caso da Austrália, da Índia e da Tailândia, por exemplo, baseia-se no processo de aquisição das quatro habilidades linguísticas: ouvir, falar, ler e escrever. Utiliza, portanto, elementos da Abordagem Natural e da Abordagem Comunicativa. Isso reflecte-se em todos os passos, desde a leitura da história até as actividades linguísticas através de jogos, porque há uma ênfase no uso adequado da língua em diversos contextos sociais e o professor e os alunos servem-se também, como dito anteriormente, da expressão facial e da expressão corporal para negociar os significados.
O ensino da leitura é visto, portanto, como um processo interactivo entre autor e leitor, em que o raciocínio desempenha um papel central, estimulado pela língua falada e pela expressão facial.
O processo de ensino CLE, parte então de textos ou livros de história ou de um texto “passo-a-passo” e, activando constantemente o raciocínio, utiliza-se da língua falada (ouvir e falar) e da língua escrita (ler e escrever) com o auxílio da expressão facial.
Isto remete-nos para um princípio fundamental do CLE, o scaffolding, que é o apoio através da contextualização.
Todas as actividades linguísticas têm origem num texto ou história que, inicialmente, é ouvida, mas não de forma passiva.
A exploração das ilustrações estimula o raciocínio e já constitui uma primeira oportunidade de expressão oral. Este é o passo inicial para a contextualização. Nos passos seguintes, todas as actividades são realizadas a partir do contexto da história ou da actividade “passo-a-passo”, o que praticamente elimina a possibilidade de algum aluno ficar excluído por não compreender o que está a acontecer.
Devemos lembrar, também, que a articulação clara das palavras é um apoio para a escrita correcta, e as actividades de escrita são precedidas pelo trabalho oral.
Como foi dito no início desta exposição, Richard Walker, Saowalak Rattanavich e John Oller, Jr. atribuem grande parte do fracasso escolar aos procedimentos tradicionais em sala de aula. A metodologia CLE propõe mudanças nesses procedimentos.
Uma descrição do que ocorre numa uma sala de CLE deixará claro o ponto de vista dos autores:
• as actividades dos alunos estão sempre relacionadas com contextos da vida real que sejam importantes para eles;
• os alunos são estimulados a trabalhar de maneira independente, ao invés de seguirem apenas instruções do professor;
• são utilizados jogos e canções para dar mais vida à aprendizagem;
• os alunos habituam-se a ler e fazer actividades em que aprendem a língua fora da escola;
• a aprendizagem ocorre através da interacção aluno-aluno e alunos-professor;
• a negociação de significados é constante, com a mediação do professor;
• não se prescreve um ritmo de aprendizagem; os alunos participam das actividades independentemente do seu estágio de aprendizagem;
• muitas actividades são desenvolvidas em grupo, o que estimula a troca de ideias e a cooperação;
• os alunos responsabilizam-se pelas próprias actividades;
• a disciplina é positiva porque os alunos estão voltados para o trabalho que estão a realizar;
• ao assumir responsabilidades os alunos desenvolvem a auto-confiança.
Estes procedimentos fazem com que a alfabetização aconteça rapidamente porque os alunos estão constantemente a realizar actividades significativas, ligadas à leitura e à escrita.
Os objectivos que se buscam atingir são:
• trabalhar as unidades até ao fim, através dos cinco passos, para que os alunos aprendam a agir com independência;
• promover a participação intensa dos alunos porque, quanto maior for o seu envolvimento, mais rápida será a aprendizagem;
• incentivar os alunos a desenvolverem as suas características pessoais, além da auto-confiança e da disposição de fazer tentativas e correr riscos para dominarem uma nova habilidade.
Também é importante lembrar que um programa CLE requer poucos recursos para ser implantado. São necessárias folhas de papel de aproximadamente 60cmX40cm, em que são escritos, o texto negociado com os alunos e o Livro Colectivo, pincel atómico, lápis pretos, lápis de cor, tesoura, cola, agrafador e outros materiais simples para Unidades “Passo-a-Passo”. Entre o 4º e o 5º Passos os alunos podem fazer livros individuais que vão formar a sua pequena biblioteca. O custo do material por turma de 30 alunos é estimado em US$60.00 por ano (€ 44.55).
Uma última observação que gostaria de fazer é que, na Tailândia, a metodologia CLE foi adoptada na rede oficial de ensino quando o Ministério da Educação constatou os resultados obtidos nos primeiros projectos implantados em regiões isoladas e com altos índices de analfabetismo e de fracasso escolar e que, ao longo de pouco mais de dez anos, o analfabetismo foi praticamente erradicado daquele país. Daí o seu lema ser “transformar o fracasso em sucesso”.

2 comentários:

Em@ disse...

que o Ciclo da Renovação interior se cumpra em nós e se concretize em forças, brilho, alegria, saúde, amor/amizade,compaixão e paz.
boa Páscoa.
continuação de bom trabalho

Miguel Loureiro disse...

São os votos também para ti, do blogueiro do clube que vais visitando e divulgando...